Portal Afro entrevista o cabeleireiro Fernando Fernandes

Fernandes é um dos mais famosos cabeleireiros do país. Seja por sua competência, comprovada pelas centenas de clientes que diariamente disputam horário em seu Studio, ou por sua personalidade audaciosa.

Ele não tem "papas na língua", suas críticas ao mercado afro-brasileiro de beleza respingam em outros profissionais, que torcem o nariz à simples menção de seu nome.

Fernandes é filho de Francisco Egídio, intérprete que teve seu auge na década de 70 e início de 80, quando era presença constante do lendário "Festa baile", da TV Cultura. Do pai não herdou os dotes musicais, mas o porte: são quase dois metros de músculos que causam "suspiros" nas mulheres e inibem eventuais desafetos.

Divide a administração de seu Studio com sua família, esposa e seus dois filhos sócios. Tâmara sua esposa e Fernando Paolo seu filho, ambos cabeleireiros.

Nesta entrevista, o polêmico cabeleireiro fala sobre o início de sua carreira, de seu trabalho, outros profissionais, das mulheres negras, de beleza, mídia... Enfim, expõe as opiniões que fazem dele uma personalidade ímpar dentro da comunidade negra brasileira.

Portal Afro - De onde surgiu o interesse por cabelos?

Fernando Fernandes - Eu trabalhava em um banco e tinha um amigo que era motorista de táxi, hoje ele também é cabeleireiro. Um dia ele comentou que seu cabeleireiro estava muito feliz com sua profissão. Curiosos, resolvemos conversar com ele. Seu nome era Lazinho, atual proprietário de um dos salões mais bem freqüentados de São Paulo. Ele nos indicou a escola Teruya, onde estudei por três anos e meio. Entrei para o curso sem muitas expectativas, caso não gostasse pararia sem nenhum problema. Mas gostei, dei prosseguimento aos estudos e posteriormente fui me aperfeiçoando, até hoje.

Portal Afro - Houve resistência por parte de seus pais?

Fernando Fernandes - Não. Eles sempre me apoiaram. Meu pai é negro e minha mãe é branca. Ele teve dificuldades por ser negro e cantor. Na época, cantor e jogador de futebol tinham fama de vagabundos. Na verdade, tive problemas com meus amigos, que falavam que todo cabeleireiro era gay. Para ser sincero, antes eu tinha um certo preconceito contra a profissão. Hoje, entendo que era uma atitude boba e machista.

Portal Afro - Você não foi influenciado pela carreira musical de seu pai?

Fernando Fernandes - Não. Acompanhei muitas histórias desagradáveis de meu pai como cantor, as dificuldades que ele enfrentou na carreira... Nunca me entusiasmei pelo mundo artístico, nem meus irmãos. Hoje, meu irmão é um dos diretores da Trama. Ele está na posição das pessoas que tomam as decisões, na mesma posição dos que fizeram meu pai sofrer. Se o artista é rotulado como cantor romântico e o romantismo não estiver na crista da onda, acaba sendo completamente descartado pelas pessoas, que antes diziam ser suas amigas. É algo que nunca me interessou.

Portal Afro - Como foi o início de seu salão?

Fernando Fernandes - No começo, eu trabalhava apenas com cabelo liso. Meu salão não era direcionado para negros. Minha mulher é branca, tem o cabelo encaracolado e foi a principal incentivadora da mudança de estilo do salão. Eu fazia algumas pesquisas com permanente em cabelo crespo. Ela percebia que eu alcançava bons resultados e dizia: "Por que não investimos nesse segmento?" Foi aí que comecei a trabalhar com cabelos crespos, procurei cursos, comecei a me interessar mais e mudei completamente meu salão. Há vários anos eu não atendo quem tem cabelo liso, só cabelos crespos.

Portal Afro - Você é considerado por muitos como um profissional muito exigente e reservado. Como é sua relação com os outros cabeleireiros?

Fernando Fernandes - Da minha parte é amistoso. Reconheço que sou extremamente profissional. Infelizmente, muitos cabeleireiros não têm um mínimo de cultura, eles não tratam o salão como uma empresa. Eu cuido de meu salão como uma empresa: preservo meu nome, o cabelo de minhas clientes, trabalho com bons produtos e sou respeitado por meus fornecedores. Como alguns profissionais não atuam dessa forma, não gostam de mim, gratuitamente. Eu não tenho "bronca" de ninguém e tento me relacionar bem como todo mundo. Eu trabalho para minhas clientes, adoro o que faço e não ligo muito para os outros.

Portal Afro - Seu trabalho é aparentemente baseado na estética dos negros norte-americanos, isso é verdade? Por quê?

Fernando Fernandes - Na realidade, fomos buscar o que eles têm de melhor: os produtos e algumas técnicas. O gosto deles é diferente do nosso. Até 1995, quando fui pela primeira vez aos EUA, eu odiava cabelos alisados. Viajei a convite de meu amigo Antonio Carlos, que também é empresário e trabalha com produtos para negros, para uma grande feira, com as últimas novidades em produtos e técnicas de beleza. Quando voltei, passei a alisar cabelos. Meu salão passou por uma transformação em termos de filosofia de trabalho. Lá, aprendi o que eles têm de melhor. Ainda encontro dificuldades para conscientizar as pessoas que elas têm que tratar o cabelo. Que é uma mudança cultural que vamos conseguir ao longo dos anos, e que não será do dia para a noite. Sei que é difícil. Tenho clientes que me odeiam e outras que me amam. Não por eu estragar o cabelo de alguém, mas sim por minha postura profissional. Tento desenvolver um trabalho voltado para o público brasileiro, pautado em produtos norte-americanos, numa filosofia norte-americana, introduzindo algumas novidades, aos poucos.

Portal Afro - O negro brasileiro copia o modelo de beleza dos norte-americanos? Por que?

Fernando Fernandes – Infelizmente, não. Se copiássemos alguma coisa seria excelente. A negra norte-americana, movida pelo poder aquisitivo, não sai do salão com o cabelo desarrumado. No Brasil, ela sai com o cabelo molhado. A negra norte-americana se atreve a fazer mudanças, a cortar o cabelo curto, a mudar o visual; a brasileira, não. Ela quer somente o cabelo liso e comprido. Se as mulheres copiassem algumas coisas, não tudo, pois nem tudo serve, com certeza seria muito melhor para os cabeleireiros e para elas mesmas.

Portal Afro - Como você vê a presença da mulher negra brasileira na mídia?

Fernando Fernandes - Em primeiro lugar não temos mídia para negros. É bem verdade que eu não posso reclamar, pois de 1997 para cá, sou o cabeleireiro negro que mais aparece na televisão. Mas, se pegarmos todos os programas de TV que falam no assunto, a maioria só aborda o cabelo liso. Ou, quando alguém aparece para falar de cabelo crespo, não tem competência para tanto. A mídia não é voltada para quem tem cabelo crespo, nem para negros. A mídia é voltada para quem tem cabelo liso, e seja branco. É preciso que isto mude, para que as pessoas tenham referência. Vejo cabelos de artistas completamente desatualizados. Qual a referência deles? Não têm! Quero dizer, a mulher liga num programa de televisão, muda de um canal para outro e somente verá cabeleireiros fazendo somente cabelos lisos, e quando aparece algum crespo, o trabalho executado é uma mentira. Costumo dizer que a mulher faz o cabelo hoje e no dia seguinte vira uma abóbora, sem a mínima condição de sair. Ela não tem referência. Vejamos, quais são os negros que estão em evidência e que têm o cabelo bonito? Nos EUA, temos a Whitney Houston, Janet Jackson, a Oprah Winfrey e muitas outras. Elas podem dizer: "Vou fazer meu cabelo igual ao da Whitney Houston" ou "Vou fazer um alongamento igual ao da Janet Jackson". E nós? Quais são nossas referências? Fora a Camila Pitanga, Glória Maria, Valéria Valenssa e Taís Araújo? A Taís está em uma novela hoje e aparecerá em outra daqui a quanto tempo? Cinco meses? Um ano? Cabeleireiro tem que ser alguém que forma opinião, tem que ter seu espaço na televisão. Cheguei a sugerir num programa que se colocasse, pelo menos uma vez por semana, um cabeleireiro que falasse de cabelos crespos, para que as pessoas pudessem conhecer mais sobre nosso trabalho, conhecer como é um permanente, uma hidratação. Mas a mídia não está interessada. Quando fazem é ruim, por não entenderem de cabelo. Eles não sabem o que as negras precisam. Em meu Studio, atendo 1000 mulheres por mês, eu sei o que elas precisam.

Portal Afro - E quando você participa de algum programa, qual é a repercussão?

Fernando Fernandes – Sempre tem algum resultado, mas não adianta nada fazer um programa como aquele, com quinze minutos e outro somente depois de seis meses. Eu cheguei a propor para a produção do último programa que fiz, uma experiência durante um mês, no qual uma vez por semana, num programa com cinco minutos, responderia a dúvidas das telespectadoras, para que elas vissem o que é tratamento para cabelos crespos. Aceitaram? Não. Estão interessados apenas em mostrar cabeleireiros com técnicas bizarras, utilizando aspirador de pó, machado... A impressão que tenho é que hoje os cabeleireiros estão deixando as mulheres feias. A última que inventaram foi à moda careca. Homem que gosta de mulher, não gosta de mulher careca! Se fosse assim, a Gisele Bundchen seria careca. Mas não, ela tem o cabelo maravilhoso e é maravilhosa. Eu acho a Valéria Valenssa também maravilhosa, mas não careca. Seria um crime deixar a globeleza careca. E se bobear, ainda o farão.

Portal Afro - Por nosso clima, não seria natural um visual mais inspirado na África? Mais colorido?

Fernando Fernandes - Olha o do colorido é complexo. Nós aqui enfrentamos um grande problema. Nos EUA vemos cabelos alisados com reflexos, mechas avermelhadas e acobreadas. Infelizmente, moramos no Terceiro Mundo, caminhando a passos largos para o Quarto, então somos obrigados a usar produtos importados para fazer relaxamento, permanente e tal... O problema é que não temos produtos, como os cabeleireiros americanos, a nossa disposição para fazer mechas coloridas ou tinturas. No Brasil, não temos esta disponibilidade. Alguns cabeleireiros fazem com produtos inadequados. Eu me nego, terminantemente. Não compactuo com este tipo de coisa. Se for para fazer porcaria, "eu tô fora". Hoje nos faltam, justamente, produtos para dar esta colorida.

Portal Afro - Por que tratar cabelos crespos ainda custa caro?

Fernando Fernandes - Porque os bons produtos são caros. Em meu Studio, uso produtos da Salon Finish, Avlon, Summit e Luster's, por exemplo, que são cotados em dólar. Se a indústria nacional se interessasse em ter produtos de qualidade... Só que não existe interesse! Existe interesse em fazer porcaria. Moramos em um país de brincadeira. Existem grandes fabricantes brasileiros que teriam condições de fazer produtos de qualidade. Só que eles não estão interessados. Eles querem vender porcarias. O maior fornecedor de cosméticos no Brasil vende shampoo por R$ 2,00. É um produto medíocre. As pessoas que anunciam o produto, não o utilizam! Deveria existir no Brasil algum órgão que proibisse isto. E de quem é a culpa? Nós, mesmos. Nós, cabeleireiros que não temos união nenhuma! Não existe nenhuma associação de cabeleireiros afros no Brasil. Fica um falando mal do outro. Se houvesse união, as coisas melhorariam muito. Teríamos condições de importar produtos em conjunto e pressionaríamos a indústria cosmética nacional, por exemplo. Como isso ainda é utopia, tenho que trabalhar com produtos importados, pagos em dólar, valores que repasso para minhas clientes, não tem outro jeito!

Portal Afro - Qual seria a freqüência ideal para consultar um cabeleireiro?

Fernando Fernandes – Em primeiro lugar, a pessoa deve ir até um salão e conversar com um profissional que entenda de cabelo crespo. Nessa conversa, deve deixar claro qual o tipo de trabalho que deseja. Quando entrevisto uma cliente, sempre pergunto: Qual é o seu sonho? Se ela quer o cabelo encaracolado, se quer liso. Eu costumo dizer que o importante é estabelecer um objetivo a ser alcançado, que pode chegar daqui a 6 ou 20 meses. Ela deverá freqüentar o salão pelo menos uma vez ao mês, e tratar o cabelo em casa, todas as semanas. Na verdade, ela irá tratar o cabelo pelo resto da vida.

Portal Afro - Quando você resolveu cuidar de cabelos crespos, como estava o mercado para este segmento?

Fernando Fernandes - O que predominava na época era o black-power. As trancinhas eram usadas, mais concentradas nos bairros centrais. Não era um movimento aberto aos bairros. O pessoal se concentrava nas Grandes Galerias. Muitos cabeleireiros que são famosos começaram ali. Hoje aquela região atravessa graves problemas, até por falta de organização. Na minha opinião, se eles tivessem se organizado, seriam imbatíveis. Eles tinham conhecimento e anos de experiência, mas faltou profissionalismo. Portanto, na época em que eu trabalhava com cabelos lisos, os donos do mercado de cabelos crespos eram os cabeleireiros das galerias. Eu tirava o chapéu para os caras.

Portal Afro - E quando você começou a fazer cabelos crespos, você não se espelhou neles? Como atraiu clientela para cá?

Fernando Fernandes - Comecei a trabalhar com algumas pessoas que freqüentavam meu salão e tinham necessidade de fazer alguma coisa. Nunca gostei muito de cabelo alisado e comecei a fazer permanentes em cabelos crespos, desenvolvendo novas técnicas e experimentando outros produtos. Fui tentando encontrar outros caminhos para deixar os cabelos bonitos, mas nunca freqüentei a galeria. Começaram a surgir empresas importadoras de produtos e comecei a fazer seus cursos, para aprender suas técnicas e poder me aperfeiçoar.

Portal Afro - Quais são os profissionais que você respeita?

Fernando Fernandes - Temos o Rubisney, Wagner Company, Wagner Ramos, de quem gosto muito, o Feliciano, do Tok Final, que é um excelente profissional, a Betina Borges, de Belo Horizonte, outra ótima profissional... Mas falta o principal: a união de todos. Sinceramente, penso que se não houver essa organização rápida, teremos problemas. As grandes redes que dominam o mercado de cabelo liso querem também entrar no de cabelos crespos, pois é sinônimo de lucro garantido.

O único problema deles é como misturar a clientela branca com as negras, no mesmo salão, no mesmo espaço. Dizem que aqui não há racismo. Mas ele existe sim!

Portal Afro - Beleza e auto-estima caminham juntas?

Fernando Fernandes - Com certeza. Eu sei o quanto é importante para a mulher ou o homem estarem bonitos para que a auto-estima seja elevada. Não adianta ser uma mulher com um corpo maravilhoso e um cabelo péssimo. Ela não consegue ficar legal. Muitas vezes funciono como um amigo, um psicólogo. Tenho clientes que me procuram antes de trazerem suas filhas. Reclamam que a menina não sai, não namora, não se relaciona bem com os outros... Tudo por causa do cabelo! Sou totalmente contra as coisas que vejo na TV, como aquelas meninas que participam de programas tipo "dia da princesa". Elas têm um dia de princesa e os outros 364 de bruxa! Ganham um monte de roupas que não terão onde colocar, jantam em um restaurante onde jamais irão retornar e se arrumam em um salão que elas nunca poderão freqüentar! Isto é mexer com a auto-estima da pessoa! É não respeitá-la! Precisamos parar de ser hipócritas e de ter dó de nós mesmos! Temos que ensinar e mostrar os caminhos para que as pessoas saiam do marasmo e das dificuldades.

Portal Afro - Qual é a filosofia de Fernando Fernandes?

Fernando Fernandes - Sou negro e gosto de me vestir bem, comer bem, ter bons carros, viajar e me sentir bem tratado nos lugares que freqüento. É assim que trato minhas clientes. Ela pode ser uma empregada doméstica, uma catadora de lixo, não me interessa, será tratada da melhor forma possível.

Portal Afro - Você prefere trabalhar com quem tem pouco ou muito dinheiro?

Fernando Fernandes – Quando vejo alguém chegando em uma BMW, fico assustado. A pessoa que tem muito dinheiro vai chegar aqui pensando que irá mandar, será preciso tirar o "topete" dela. A humilde não tem este problema, já chega humildezinha. Têm pessoas que são arrogantes...

Portal Afro - Que mensagem você deixaria para quem esta começando?

Fernando Fernandes – É preciso gostar muito da profissão. É preciso trabalhar em bons lugares antes de montar o próprio negócio. Deve-se também se espelhar em alguém. Aqui no Brasil é um pouco difícil. São poucos os competentes, em todas as áreas. Se eu fosse cirurgião plástico, por exemplo, iria estudar com Ivo Pitanguy, no mínimo! Outra dica é não visar apenas o dinheiro. Em primeiro lugar o cliente deve estar satisfeito. Em segundo lugar o profissional deve estar satisfeito. E, em terceiro lugar entra o dinheiro, que garante a sobrevivência do profissional.

Portal Afro - E o futuro?

Fernando Fernandes – Eu tenho um sonho. Ter uma vida legal e viajar bastante pelo mundo. Dar uma boa vida para minha mulher e meus filhos. Ter uma velhice digna. Eu sonhava em ter o melhor salão para negros do Brasil. Na minha cabeça eu tenho. Não conheço ninguém que tenha um melhor, pode ser até igual, mas melhor, não.

"Corram atrás de seu sonho. Sonhem alto"

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